
{"id":421,"date":"2010-10-03T19:33:11","date_gmt":"2010-10-03T18:33:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nunoprospero.com\/blog\/?p=421"},"modified":"2018-04-25T00:40:44","modified_gmt":"2018-04-24T23:40:44","slug":"chuva-obliqua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.nunoprospero.com\/blog\/2010\/10\/chuva-obliqua\/","title":{"rendered":"Chuva Obl\u00edqua"},"content":{"rendered":"<p>Come\u00e7a a \u00e9poca das chuvas e lembrei-me desta p\u00e9rola do cubismo e interseccionismo de Fernando Pessoa.<\/p>\n<blockquote><p><strong> I<\/strong><\/p>\n<p><strong>ATRAVESSA esta paisagem o meu sonho dum porto infinito<\/strong><br \/>\n<strong>E a cor das flores \u00e9 transparente de as velas de grandes navios<\/strong><br \/>\n<strong>Que largam do cais arrastando nas \u00e1guas por sombra<\/strong><br \/>\n<strong>Os vultos ao sol daquelas \u00e1rvores antigas&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>O porto que sonho \u00e9 sombrio e p\u00e1lido<\/strong><br \/>\n<strong>E esta paisagem \u00e9 cheia de sol deste lado&#8230;<\/strong><br \/>\n<strong>Mas no meu esp\u00edrito o sol deste dia \u00e9 porto sombrio<\/strong><br \/>\n<strong>E os navios que saem do porto s\u00e3o estas \u00e1rvores ao sol&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo&#8230;<\/strong><br \/>\n<strong>O vulto do cais \u00e9 a estrada n\u00edtida e calma<\/strong><br \/>\n<strong>Que se levanta e se ergue como um muro,<\/strong><br \/>\n<strong>E os navios passam por dentro dos troncos das \u00e1rvores<\/strong><br \/>\n<strong>Com uma horizontalidade vertical,<\/strong><br \/>\n<strong>E deixam cair amarras na \u00e1gua pelas folhas uma a uma dentro&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>N\u00e3o sei quem me sonho&#8230;<\/strong><br \/>\n<strong>S\u00fabito toda a \u00e1gua do mar do porto \u00e9 transparente<\/strong><br \/>\n<strong>e vejo no fundo, como uma estampa enorme que l\u00e1 estivesse desdobrada,<\/strong><br \/>\n<strong>Esta paisagem toda, renque de \u00e1rvore, estrada a arder em aquele porto,<\/strong><br \/>\n<strong>E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa<\/strong><br \/>\n<strong>Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem<\/strong><br \/>\n<strong>E chega ao p\u00e9 de mim, e entra por mim dentro,<\/strong><br \/>\n<strong>E passa para o outro lado da minha alma&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong> II<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia,<\/strong><br \/>\n<strong>E cada vela que se acende \u00e9 mais chuva a bater na vidra\u00e7a&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Alegra-me ouvir a chuva porque ela \u00e9 o templo estar aceso,<\/strong><br \/>\n<strong>E as vidra\u00e7as da igreja vistas de fora s\u00e3o o som da chuva ouvido por dentro&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>O esplendor do altar-mor \u00e9 o eu n\u00e3o poder quase ver os montes<\/strong><br \/>\n<strong>Atrav\u00e9s da chuva que \u00e9 ouro t\u00e3o solene na toalha do altar&#8230;<\/strong><br \/>\n<strong>Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidra\u00e7a<\/strong><br \/>\n<strong>E sente-se chiar a \u00e1gua no fato de haver coro&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>A missa \u00e9 um autom\u00f3vel que passa<\/strong><br \/>\n<strong>Atrav\u00e9s dos fi\u00e9is que se ajoelham em hoje ser um dia triste&#8230;<\/strong><br \/>\n<strong>S\u00fabito vento sacode em esplendor maior<\/strong><br \/>\n<strong>A festa da catedral e o ru\u00eddo da chuva absorve tudo<\/strong><br \/>\n<strong>At\u00e9 s\u00f3 se ouvir a voz do padre \u00e1gua perder-se ao longe<\/strong><br \/>\n<strong>Com o som de rodas de autom\u00f3vel&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>E apagam-se as luzes da igreja<\/strong><br \/>\n<strong>Na chuva que cessa&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong> III<\/strong><\/p>\n<p><strong>A Grande Esfinge do Egito sonha p\u00f4r este papel dentro&#8230;<\/strong><br \/>\n<strong>Escrevo &#8211; e ela aparece-me atrav\u00e9s da minha m\u00e3o transparente<\/strong><br \/>\n<strong>E ao canto do papel erguem-se as pir\u00e2mides&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Escrevo &#8211; perturbo-me de ver o bico da minha pena<\/strong><br \/>\n<strong>Ser o perfil do rei Qu\u00e9ops&#8230;<\/strong><br \/>\n<strong>De repente paro&#8230;<\/strong><br \/>\n<strong>Escureceu tudo&#8230; Caio por um abismo feito de tempo&#8230;<\/strong><br \/>\n<strong>Estou soterrado sob as pir\u00e2mides a escrever versos \u00e0 luz clara deste candeeiro<\/strong><br \/>\n<strong>E todo o Egito me esmaga de alto atrav\u00e9s dos tra\u00e7os que fa\u00e7o com a pena&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ou\u00e7o a Esfinge rir por dentro<\/strong><br \/>\n<strong>O som da minha pena a correr no papel&#8230;<\/strong><br \/>\n<strong>Atravessa o eu n\u00e3o poder v\u00ea-la uma m\u00e3o enorme,<\/strong><br \/>\n<strong>Varre tudo para o canto do teto que fica por detr\u00e1s de mim,<\/strong><br \/>\n<strong>E sobre o papel onde escrevo, entre ele e a pena que escreve<\/strong><br \/>\n<strong>Jaz o cad\u00e1ver do rei Que\u00f3ps, olhando-me com olhos muito abertos,<\/strong><br \/>\n<strong>E entre os nossos olhares que se cruzam corre o Nilo<\/strong><br \/>\n<strong>E uma alegria de barcos embandeirados erra<\/strong><br \/>\n<strong>Numa diagonal difusa<\/strong><br \/>\n<strong>Entre mim e o que eu penso&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Funerais do rei Que\u00f3ps em ouro velho e Mim!&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong> IV<\/strong><\/p>\n<p><strong>Que pandeiretas o sil\u00eancio deste quarto!&#8230;<\/strong><br \/>\n<strong>As paredes est\u00e3o na Andaluzia&#8230;<\/strong><br \/>\n<strong>H\u00e1 dan\u00e7as sensuais no brilho fixo da luz&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>De repente todo o espa\u00e7o p\u00e1ra&#8230;,<\/strong><br \/>\n<strong>P\u00e1ra, escorrega, desembrulha-se&#8230;,<\/strong><br \/>\n<strong>E num canto do teto, muito mais longe do que ele est\u00e1,<\/strong><br \/>\n<strong>Abrem m\u00e3os brancas janelas secretas<\/strong><br \/>\n<strong>E h\u00e1 ramos de violetas caindo<\/strong><br \/>\n<strong>De haver uma noite de Primavera l\u00e1 fora<\/strong><br \/>\n<strong>Sobre o eu estar de olhos fechados&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong> V<\/strong><\/p>\n<p><strong>L\u00e1 fora vai um redemoinho de sol os cavalos do carroussel&#8230;<\/strong><br \/>\n<strong>\u00c1rvores, pedras, montes, bailam parados dentro de mim&#8230;<\/strong><br \/>\n<strong>Noite absoluta na feira iluminada, luar no dia de sol l\u00e1 fora,<\/strong><br \/>\n<strong>E as luzes todas da feira fazem ru\u00eddos dos muros do quintal&#8230;<\/strong><br \/>\n<strong>Ranchos de raparigas de bilha \u00e0 cabe\u00e7a<\/strong><br \/>\n<strong>Que passam l\u00e1 fora, cheias de estar sob o sol,<\/strong><br \/>\n<strong>Cruzam-se com grandes grupos peganhentos de gente que anda na feira,<\/strong><br \/>\n<strong>Gente toda misturada com as luzes das barracas, com a noite e com o luar,<\/strong><\/p>\n<p><strong>E os dois grupos encontram-se e penetram-se<\/strong><br \/>\n<strong>At\u00e9 formarem s\u00f3 um que \u00e9 os dois&#8230;<\/strong><br \/>\n<strong>A feira e as luzes das feiras e a gente que anda na feira,<\/strong><br \/>\n<strong>E a noite que pega na feira e a levanta no ar,<\/strong><br \/>\n<strong>Andam por cima das copas das \u00e1rvores cheias de sol,<\/strong><br \/>\n<strong>Andam visivelmente por baixo dos penedos que luzem ao sol,<\/strong><br \/>\n<strong>Aparecem do outro lado das bilhas que as raparigas levam \u00e0 cabe\u00e7a,<\/strong><br \/>\n<strong>E toda esta paisagem de primavera \u00e9 a lua sobre a feira,<\/strong><br \/>\n<strong>E toda a feira com ru\u00eddos e luzes \u00e9 o ch\u00e3o deste dia de sol&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>De repente algu\u00e9m sacode esta hora dupla como numa peneira<\/strong><br \/>\n<strong>E, misturado, o p\u00f3 das duas realidades cai<\/strong><br \/>\n<strong>Sobre as minhas m\u00e3os cheias de desenhos de portos<\/strong><br \/>\n<strong>Com grandes naus que se v\u00e3o e n\u00e3o pensam em voltar&#8230;<\/strong><br \/>\n<strong>P\u00f3 de oiro branco e negro sobre os meus dedos&#8230;<\/strong><br \/>\n<strong>As minhas m\u00e3os s\u00e3o os passos daquela rapariga que abandona a feira,<\/strong><br \/>\n<strong>Sozinha e contente como o dia de hoje..<\/strong><\/p>\n<p><strong> VI<\/strong><\/p>\n<p><strong>O maestro sacode a batuta,<\/strong><br \/>\n<strong>E l\u00e2nguida e triste a m\u00fasica rompe&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Lembra-me a minha inf\u00e2ncia, aquele dia<\/strong><br \/>\n<strong>Em que eu brincava ao p\u00e9 de um muro de quintal<\/strong><br \/>\n<strong>Atirando-lhe com uma bola que tinha dum lado<\/strong><br \/>\n<strong>O deslizar dum c\u00e3o verde, e do outro lado<\/strong><br \/>\n<strong>Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Prossegue a m\u00fasica, e eis na minha inf\u00e2ncia<\/strong><br \/>\n<strong>De repente entre mim e o maestro, muro branco,<\/strong><br \/>\n<strong>Vai e vem a bola, ora um c\u00e3o verde,<\/strong><br \/>\n<strong>Ora um cavalo azul com um jockey amarelo&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Todo o teatro \u00e9 o meu quintal, a minha inf\u00e2ncia<\/strong><br \/>\n<strong>Est\u00e1 em todos os lugares, e a bola vem a tocar m\u00fasica,<\/strong><br \/>\n<strong>Uma m\u00fasica triste e vaga que passeia no meu quintal<\/strong><br \/>\n<strong>Vestida de c\u00e3o tornando-se jockey amarelo&#8230;<\/strong><br \/>\n<strong>(T\u00e3o r\u00e1pida gira a bola entre mim e os m\u00fasicos&#8230;)<\/strong><\/p>\n<p><strong>Atiro-a de encontro \u00e0 minha inf\u00e2ncia e ela <\/strong><br \/>\n<strong>Atravessa o teatro todo que est\u00e1 aos meus p\u00e9s<\/strong><br \/>\n<strong>A brincar com um jockey amarelo e um c\u00e3o verde<\/strong><br \/>\n<strong>E um cavalo azul que aparece por cima do muro<\/strong><br \/>\n<strong>Do meu quintal&#8230; E a m\u00fasica atira com bolas<\/strong><br \/>\n<strong>\u00c0 minha inf\u00e2ncia&#8230; E o muro do quintal \u00e9 feito de gestos<\/strong><br \/>\n<strong>De batuta e rota\u00e7\u00f5es confusas de c\u00e3es verdes<\/strong><br \/>\n<strong>E cavalos azuis e jockeys amarelos&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Todo o teatro \u00e9 um muro branco de m\u00fasica<\/strong><br \/>\n<strong>Por onde um c\u00e3o verde corre atr\u00e1s de minha saudade<\/strong><br \/>\n<strong>Da minha inf\u00e2ncia, cavalo azul com um jockey amarelo&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>E dum lado para o outro, da direita para a esquerda,<\/strong><br \/>\n<strong>Donde h\u00e1 arvores e entre os ramos ao p\u00e9 da copa<\/strong><br \/>\n<strong>Com orquestras a tocar m\u00fasica,<\/strong><br \/>\n<strong>Para onde h\u00e1 filas de bolas na loja onde comprei<\/strong><br \/>\n<strong>E o homem da loja sorri entre as mem\u00f3rias da minha inf\u00e2ncia&#8230;<\/strong><br \/>\n<strong>E a m\u00fasica cessa como um muro que desaba,<\/strong><br \/>\n<strong>A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,<\/strong><br \/>\n<strong>E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se preto,<\/strong><br \/>\n<strong>Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,<\/strong><br \/>\n<strong>E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabe\u00e7a, <\/strong><br \/>\n<strong>Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong><br \/>\n<\/strong><\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Come\u00e7a a \u00e9poca das chuvas e lembrei-me desta p\u00e9rola do cubismo e interseccionismo de Fernando Pessoa. I ATRAVESSA esta paisagem o meu sonho dum porto infinito E a cor das flores \u00e9 transparente de as velas de grandes navios Que largam do cais arrastando nas \u00e1guas por sombra Os vultos ao sol daquelas \u00e1rvores antigas&#8230; [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":790,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[12],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.nunoprospero.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/421"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.nunoprospero.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.nunoprospero.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.nunoprospero.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.nunoprospero.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=421"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.nunoprospero.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/421\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.nunoprospero.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/790"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.nunoprospero.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=421"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.nunoprospero.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=421"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.nunoprospero.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=421"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}