
{"id":465,"date":"2010-11-06T16:56:51","date_gmt":"2010-11-06T16:56:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nunoprospero.com\/blog\/?p=465"},"modified":"2020-11-04T01:31:32","modified_gmt":"2020-11-04T01:31:32","slug":"os-jogadores-de-xadrez","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.nunoprospero.com\/blog\/2010\/11\/os-jogadores-de-xadrez\/","title":{"rendered":"Os Jogadores de Xadrez"},"content":{"rendered":"\n<p>Fenomenal esta ode de Ricardo Reis, na qual explora o Estoicismo personificado nos dois jogadores que n\u00e3o interrompem o jogo num contexto de loucos.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.nunoprospero.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/xadrez1.jpg\" alt=\"jogadores de xadrez ricardo reis\" class=\"wp-image-466\" width=\"581\" height=\"471\" title=\"jogadores de xadrez ricardo reis\" srcset=\"https:\/\/www.nunoprospero.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/xadrez1.jpg 400w, https:\/\/www.nunoprospero.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/xadrez1-300x243.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 581px) 100vw, 581px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Ouvi contar que outrora, quando a P\u00e9rsia<br>Tinha n\u00e3o sei qual guerra,<br>Quando a invas\u00e3o ardia na Cidade<br>E as mulheres gritavam,<br>Dois jogadores de xadrez jogavam<br>O seu jogo cont\u00ednuo.<\/p><p>\u00c0 sombra de ampla \u00e1rvore fitavam<br>O tabuleiro antigo,<br>E, ao lado de cada um, esperando os seus<br>Momentos mais folgados,<br>Quando havia movido a pedra, e agora<br>Esperava o advers\u00e1rio.<br>Um p\u00facaro com vinho refrescava<br>Sobriamente a sua sede.<\/p><p>Ardiam casas saqueadas eram<br>As arcas e as paredes,<br>Violadas, as mulheres eram postas<br>Contra os muros ca\u00eddas,<br>Traspassadas de lan\u00e7as, as crian\u00e7as<br>Eram sangue nas ruas\u2026<br>Mas onde estavam, perto da cidade,<br>E longe do seu ru\u00eddo,<br>Os jogadores de xadrez jogavam<br>O jogo do xadrez.<\/p><p>Inda que nas mensagens do ermo vento<br>Lhes viessem os gritos,<br>E, ao refletir, soubessem desde a alma<br>Que por certo as mulheres<br>E as tenras filhas violadas eram<br>Nessa dist\u00e2ncia pr\u00f3ximo,<br>Inda que, no momento que o pensavam,<\/p><p>Uma sombra ligeira<br>Lhes passasse na fronte alheada e vaga,<br>Breve seus olhos calmos<br>Volviam sua atenta confian\u00e7a<br>Ao tabuleiro, velho.<\/p><p>Quando o rei de marfim est\u00e1 em perigo,<br>Que importa a carne e o osso<br>Das irm\u00e3s e das m\u00e3es e das crian\u00e7as?<br>Quando a torre n\u00e3o cobre<br>A retirada da rainha branca,<br>O saque pouco importa.<\/p><p>E quando a m\u00e3o confiada leva o xeque<br>Ao rei do advers\u00e1rio,<br>Pouco pesa na alma que l\u00e1 longe<br>Estejam morrendo filhos.<br>Mesmo que, de repente, sobre o muro<br>Surja a sanhuda face<br>Dum guerreiro invasor, e breve deva<br>Em sangue ali cair<br>O jogador solene de xadrez<br>O momento antes desse<br>(\u00c9 ainda dado ao c\u00e1lculo dum lance<br>Pra a efeito horas depois)<br>\u00c9 ainda entregue ao jogo predileto<br>Dos grandes indif\u2019rentes.<\/p><p>Caiam cidades, sofram povos, cesse<br>A liberdade e a vida.<br>Os haveres tranquilos e avitos<br>Ardem e que se arranquem,<br>Mas quando a guerra o jogo interrompa,<br>esteja o rei sem xeque,<br>E o de marfim pe\u00e3o mais avan\u00e7ado<br>Pronto a comprar a torre.<\/p><p>Meus irm\u00e3os em amarmos Epicuro<br>E o entendermos mais<br>De acordo com n\u00f3s-pr\u00f3prios que com ele,<br>Aprendamos na hist\u00f3ria<br>Dos calmos jogadores de xadrez<br>Como passar a vida.<\/p><p>Tudo o que \u00e9 s\u00e9rio pouco nos importe,<br>O grave pouco pese,<br>O natural impulso dos instintos<br>Que ceda ao in\u00fatil gogo<br>(Sob a sombra tranquila do arvoredo)<br>De jogar um bem jogo.<\/p><p>O que levamos desta vida in\u00fatil<br>Tanto vale se \u00e9<br>A gl\u00f3ria, a fama, o amor, a ci\u00eancia, a vida,<br>Como se fosse apenas<br>A mem\u00f3ria de um jogo bem jogado<br>E uma partida ganha<br>A um jogador melhor.<\/p><p>A gl\u00f3ria pesa como um fardo rico,<br>A fama como a febre,<br>O amor cansa, porque \u00e9 s\u00e9rio e busca,<br>A ci\u00eancia nunca encontra,<br>E a vida passa e d\u00f3i porque o conhece\u2026<br>O jogo de xadrez<br>Prende a alma toda, mas, perdido, pouco<br>Pesa, pois n\u00e3o \u00e9 nada.<\/p><p>Ah! sob as sombras que sem qu\u2019rer nos amam,<br>Com um p\u00facaro de vinho<br>Ao lado, e atentos s\u00f3 \u00e0 in\u00fatil faina<br>De jogo do xadrez<br>Mesmo que o jogo seja apenas sonho<br>E n\u00e3o haja parceiro,<br>Imitemos os persas desta hist\u00f3ria,<br>E, enquanto l\u00e1 fora,<br>Ou perto ou longe, a guerra e a p\u00e1tria e a vida<br>Chamam por n\u00f3s, cada um de n\u00f3s<br>Sob as sombras amigas<br>Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez<br>A sua indiferen\u00e7a.<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fenomenal esta ode de Ricardo Reis, na qual explora o Estoicismo personificado nos dois jogadores que n\u00e3o interrompem o jogo num contexto de loucos. Ouvi contar que outrora, quando a P\u00e9rsiaTinha n\u00e3o sei qual guerra,Quando a invas\u00e3o ardia na CidadeE as mulheres gritavam,Dois jogadores de xadrez jogavamO seu jogo cont\u00ednuo. \u00c0 sombra de ampla \u00e1rvore [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":790,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[12],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.nunoprospero.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/465"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.nunoprospero.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.nunoprospero.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.nunoprospero.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.nunoprospero.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=465"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.nunoprospero.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/465\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1886,"href":"https:\/\/www.nunoprospero.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/465\/revisions\/1886"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.nunoprospero.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/790"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.nunoprospero.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=465"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.nunoprospero.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=465"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.nunoprospero.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=465"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}